Pela primeira vez, grandes empresas brasileiras estão incluindo indicadores de saúde mental em seus relatórios anuais. O que mudou — e o que ainda precisa mudar.
Em 2025, o Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais da história: mais de 470 mil casos, segundo dados do INSS. O número representa um aumento de 38% em relação a 2022 e colocou o tema definitivamente na agenda corporativa.
Empresas como Ambev, Magazine Luiza e Nubank já publicam dados sobre saúde mental em seus relatórios de sustentabilidade. A Ambev, por exemplo, revelou que investiu R$ 28 milhões em programas de apoio psicológico para funcionários em 2025 — um aumento de 60% em relação ao ano anterior.
Mas especialistas alertam que os números podem esconder mais do que revelam. "Ter um programa de apoio psicológico é diferente de ter uma cultura que não adoece as pessoas", diz a psicóloga organizacional Fernanda Rocha, que atende executivos de grandes empresas em São Paulo. "Muitas empresas estão tratando o sintoma sem olhar para a causa."
A causa, na maioria dos casos, é conhecida: excesso de trabalho, metas inatingíveis, falta de autonomia e ambientes de alta pressão com baixo reconhecimento. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostrou que 43% dos trabalhadores brasileiros relatam sintomas de burnout — índice acima da média global de 35%.
"O que mudou é que agora tem custo financeiro mensurável", explica o consultor de RH Paulo Drummond. "Afastamento, turnover, queda de produtividade — tudo isso aparece no balanço. Quando o CFO começa a perguntar sobre saúde mental, a conversa muda de patamar."
Algumas empresas estão indo além dos programas tradicionais. A startup de logística Movvi, com sede em São Paulo, implementou uma política de "sextas-feiras sem reuniões" e limite de mensagens de trabalho após as 19h. "Parece simples, mas foi transformador", diz o fundador. "As pessoas começaram a confiar que o trabalho delas seria respeitado."
O caminho é longo, mas o sinal é claro: saúde mental deixou de ser assunto de RH e virou questão de governança corporativa.